Todas as sensações ruins da manhã tomaram-na de novo. A
ansiedade, o medo. E a certeza de que algo horrível estava prestes
a acontecer.A Maple Street estava deserta. As altas casas vitorianas pareciam estranhas e silenciosas, como se todas estivessem desocupadas,
como as casas de um set de filmagem abandonado. Todas
davam a impressão de não conter gente, mas sim coisas
estranhas que a observavam.Era isso; alguma coisa a observava. O céu não estava azul,mas leitoso e opaco, como uma tigela gigante virada de cabeça
para baixo. O ar era abafado e Elena tinha certeza de que alguém
a olhava.Ela teve um vislumbre de alguma coisa escura nos galhos do
velho marmeleiro na frente da casa.Era um corvo, empoleirado imóvel nas folhas amareladas.E era aquilo que a observava.Ela tentou dizer a si mesma que isso era ridículo, mas de algum modo ela entendeu. Era o maior corvo que vira na vida,roliço e lustroso, com um arco-íris cintilando nas penas do dorso. Ela podia ver cada detalhe dele com clareza: as garras
escuras e ávidas, o bico afiado, um olho preto reluzindo.Estava tão imóvel que podia ser um modelo de cera de uma ave pousada ali. Mas, enquanto o olhava, Elena se sentiu corar aos poucos, o calor vindo em ondas pelo pescoço e as bochechas. Porque ele... olhava para ela. Da mesma maneira
que os meninos olhavam quando ela usava um biquíni ou uma blusa transparente.Como se a estivesse despindo com os olhos.
Antes que percebesse o que fazia, ela largou a mochila e pegou uma pedra ao lado da entrada da casa.
— Sai daqui — disse ela, e ouviu a raiva tremer em sua voz.
— Sai! Sai daqui! — Com a última palavra, ela atirou a pedra.
Diário Do Vampiro: O despertar